FLECHA NO ALVO
DEDICADO

Bem naquele dia em que você acorda resmungando,
E o corpo pesado vai contra o comando de levantar-se.
Aquele dia em que você ouve o sol te xingando,
E as pernas sofrem,querendo mesmo é arrastar-se.
Bem naquele dia em que seus pensamentos são dinamite,
E todo o seu ânimo é poeira esvaída ao vento.
Aquele dia em que sua voz interior só diz: “Porque insiste?”
E quando ouve-se um “bom-dia” dá vontade de responder:”só pra você,eu lamento”.

Bem nesse dia você falou comigo.
Inesperadamente você falou comigo

E em um instante fez todo o sentido ter saído da cama.
O sono e o cansaço deram lugar ao animo e à vontade.
Compreendi que o sol é vida,e da vida não se reclama.
E as pernas vacilantes tornaram-se firmes como a realidade.
Os pensamentos esclarecidos ganharam luz própria e reluzente.
A coragem era mais que força,era força e felicidade.
A voz interior respondeu: “Porque tenho uma alma que sente”.
E o bom dia ouvido tornou-se um bom dia,o melhor dia,de verdade.

Por um segundo aquela noite agradável tornou-se uma pequena tragédia; foi mesmo por um segundo, o segundo em que J… decidiu descer uma rua ao invés de prosseguir reto.
Na mal agourenta rua escolhida o pobre J… deparou-se com a sua mulher sendo cortejada ( cortejada o escambau,J… sabia muito bem que o filho da puta desgraçado estava falando-lhe algumas depravações sórdidas) e, o que era pior, ela aparentava estar gostando, com um sei-lá-o-quê em seu sorriso áspero, malicioso e grudento demais,demais.
J…passou pela outra calçada e nada fez, pois a sua mulher era sua só para ele; até que J… tentou algumas muitas vezes convencê-la a lhe dar uma chance,mas sem nenhum sucesso. O miserável não parecia estar tendo lá muito sucesso também, mas em verdade ele a tocava e dizia besteiras enquanto ela, distraidamente,sorria e o que para ela era gracejo para J…era tortura e melancólico fim.
Por um segundo, aquele maldito segundo, a noite se foi.

Sabe-se o que tem ao lado,
Mas não sabe-se o que há por dentro;
Sabe-se desenfrear a língua,
Mas não sabe-se sobre controlar o cérebro;
Sabe-se que não se sabe nada,
Mas o nada parece não abranger a arrogância;
Sabe-se que pouco acontece a um espírito tímido,
Mas menos ainda sabe-se sobre o que é ousadia;
Sabe-se que há uma lista de princípios morais,
Mas não sabe-se que o mesmo homem que ama é o mesmo que mata,
E que a vítima hoje,pode ser o culpado amanhã….
Culpado de ser humano?
A natureza humana é ser humano:
E humano mente, e humano salva;e humano sorri,e humano chora; e humano se vinga,e humano perdoa….
Então, o que se sabe?
Sabe-se que há uma possível alegria na tristeza alheia,
Mas é a alegria alheia que mais pode trazer tristeza
E essa tristeza tem nome: inveja.
E, por falar em nomes,sabe-se que os sentimentos tem nomes,
Mas não sabe-se que a sensação “amor”,continuaria sendo a sensação “amor”
Mesmo que se chamasse “euforia”
E então…o que se sabe?

Essas palavras que escolho e escrevo
(Ou seriam elas que me escolhem?) -
Faço delas a substância externa de minha consciência.

Essas palavras,
Vadias,
Que uma vez escritas,
Saem errando e perambulando
Através dos infindáveis vales das imagens
E das íngremes encostas dos conceitos.

Essas palavras que são o meu respirar ar puro,
O remédio para a irremediável doença de ser eu.

Essas palavras distraídas e absurdas,
Riscos e rabiscos de minha inconsciência intelectual.

Essas palavras que são o traje solene
Com que me apresento ao trágico espetáculo do mundo.

Essas palavras,traços da minha indolência de existir,
Releituras de um vago pasmo tardio e ausente,
Diante da poesia incompleta que sou

     Os gatos da vizinhança já por algumas horas entoavam suas estridentes e irritantes melodias, o que certamente deveria estar incomodando muito a muitos, mas não a Marcela.

     Desperta e sem a menor vocação para o sono,Marcela começara a noite tomando uma escaldante e prolongada chuveirada, e logo passou a tomar de seu velho companheiro, o vinho, ainda molhada e parcialmente coberta por sua toalha branca, vinho que transformava a inquietante solidão e o vazio das noites em claro em algo diferente; ou não - era ainda a mesma coisa,mas entorpecida, desfocada,desvairada, palavras que em sua essência identificariam lucidamente a própria Marcela, que sendo um espírito livre e esclarecido,reconhecia a proporção de seu abandono. Reconhecer, porém, não é admitir e ela não toleraria a admissão, ao menos não em si e sobre si mesma, e por isso talvez o predicado tresloucada,sem doses de desespero,fosse o que mais lhe caísse bem. O mesmo não se pode dizer das doses de vinho - essas eram muitas,infindáveis.

     Apoiada no beiral de sua varanda, Marcela iniciava sua terceira garrafa, a língua já amortecida, o corpo já relaxado e a mente em um turbilhão de sentidos inexistentes, significados inúteis, respostas que nunca são respostas, vagando por rumos ébrios e distantes, mais ou menos como a efêmera fumaça azulada oriunda do cigarro aceso entre os dedos de sua mão esquerda, ou como a luz alaranjada dos postes, ou a velocidade surda dos carros, o brilho morto das estrelas do céu coberto de fuligem, o persistente e barulhento canto dos gatos…

     Marcela pensou em quanto tudo à sua volta era insustentável, menos sua solidão, e estranhamente sentiu-se egoísta por isso, mas não tanto como em muitas outras vezes, como daquela vez em que entendeu em si aquela sensação de ausência, ou aquela perturbadora ausência de sensações, pois isto é a solidão: a sensação de ausência das sensações.

Agora eu sei a resposta para a pergunta,mas não estou certo sobre se gostaria de saber,ao menos assim,tão cedo. A verdade é que alguns malditos sábios acertaram: existe vida após a morte!

Não vi nem um céu nem um inferno nem um purgatório e, ao menos que ele seja essa sensação mista de estranheza,completude e leveza,certamente nem um deus.

Além do nada,esse frio. Só restou-me esse frio,envolto em uma densa e pastosa camada branca,que vai até onde meus olhos podem chegar, e as breves memórias da minha vida,que não é mais vida.Talvez o inferno seja este: ficar remoendo e ruminando eternamente as lembranças de um passado que nem passado é mais.

Não sinto mais fome,ou sede,ou sono,ou qualquer outra sensação física,além dessa porcaria de frio,um frio visceral; as memórias,porém,estão aqui,firmes e sólidas como nunca estiveram enquanto estive no mundo dos vivos,com a medida de distanciamento e abstração seguros,que talvez minhas limitações humanas e minha fragilidade inerente não me tenham permitido alcançar antes,embora fosse um de meus objetivos.Vejo que é possível que eu nunca tenha sido honesto em meus objetivos e nunca tenha buscado um sentido claro em minhas convicções.Talvez.

Agora,em contrapartida,tudo é claro.Inclusive o cenário ao meu redor - é de um branco tão brilhante, tão luzente, um clarão tão infinito,que chega a ser desconfortável…e é isso.Restaram-me depois de morto as memórias,o frio e o desconforto,nada muito diferente do mundo dos vivos,afinal.

O momento exato de minha morte,deste não consigo recordar.De tudo o que posso recordar aqui,é exatamente do que não posso que mais sinto falta.Mas não é um sentir em si,aqui não se sente nada propriamente dito,estou apenas nomeando uma espécie de inquietação,que não é inquietação,enfim,algo que mostra como é débil o vocabulário humano e o fato é que quem eu era,se é que eu fui, já não é nem será.Então o que seria essa “ansiedade”? Nem no mundo dos espíritos há paz de espírito?

Ao menos existe o silêncio em abundância.Esta deve ser a porção que caberia ao céu,de que tanto falam.