FLECHA NO ALVO

Felicidade para ela era tirar da parede, com as unhas, os sinais de mofo. Ficar ali raspando as unhas contra a parede é que era felicidade.
Também era grande felicidade passar e tomar um café bem quente, bem forte, bem adocicado, a qualquer hora do dia.
Quando alguns versos tomavam-lhe a mente, insistindo para dela sair,a tal ponto que rasgavam as intempéries de fato e ganhavam vida onde quer que fosse, isto sim era felicidade.
O barulho que faz a rolha da garrafa de um bom vinho tinto quando é arrancada, para ela era a felicidade das felicidades.
Quando escutava a voz de sua mãezinha, tão distante, percorrendo ondas frias do telefone para esquentar e acalentar seu peito doído, era a razão de ser de todas as outras felicidades.
Cutucar o ouvido com o cotonete era, para ela, uma felicidade absurda.
Esquecer as dores do dia e as inconveniencias do mundo ao tomar um demorado banho quente era muita felicidade.
Vez ou outra ir até a loja comprar sapatos novos era felicidade transcendental.
Repassar mentalmente cada uma das frases ou atitudes tomadas durante o dia que reforçavam a sua maturidade e independencia, especialmente nos quesitos psicológicos e emocionais era uma saborosa felicidade
Quando mesmo na barulhenta, na ruidosa cidade grande, a cidade-máquina, a cidade-concreto, conseguia notar o canto insistente e cricriante de um grilo ou a canção bisonha de uma cigarra era, para ela, uma felicidade imemorial.
Abrir a caixa de recordações e observar cada uma das fotos, cartas, bilhetes e outros souveniers ali dispostos era uma felicidade indescritível.
Sair pelas ruas assobiando ou cantarolando as musicas que brotassem de sua cabeça era uma felicidade ímpar.
Estes eram alguns exemplos módicos de toda a sua felicidade
Certo dia, um incauto sujeito, perguntou-lhe se ela era feliz.
Ela não conseguiu evitar um olhar de deboche, enquanto esboçava um sorriso irônico e meneava a cabeça, respondendo com sua graça característica:
-Felicidade é ser.

-Me vê uma dose aí!
-A de sempre?
-A de sempre.
Pediu recostando o traseiro gordo naquele banco desconfortável, porém tão desejável, que ficam próximos ao balcão da maioria dos bares, apoiando os braços e cruzando os dedos das mãos, cabisbaixo, sem a menor intenção de esconder seu desgosto, estampado no rosto e em toda a expressão corporal.
Era de conhecimento de todos que tratava-se de um desgostoso por natureza.
O dono do bar, já acostumado com aquelas espécies de estado de espírito e natureza que eram a mais sincera razão de ser de seu estabelecimento, sabia, por vasta experiência, que estes tipos desgostosos, decadentes, deprimidos eram um cancro para a saúde social, mas a cura para o seu caixa, por isto não se incomodava em demonstrar certa generosidade ao puxar assuntos, fazendo as vezes de um amigo de aluguel, por assim dizer.
-E então, como vai o trabalho?
-É basicamente a razão pela qual venho aqui com frequencia. E veja mais uma dose aí.
-Então o seu trabalho tem dado lucro ao seu chefe e à mim.
-A muitos….menos a mim.
-E a família?
-Meu cachorro morreu ontem. Estou aqui definindo se devo considerá-lo família ou não. Se sim, lhe dou um enterro decente, se não, jogo ele em frente a casa do vizinho.
-Seu vizinho vai ficar puto
-Meu vizinho já é um merda de um puto.
-E nos dias de hoje, quem não é?
O dono do bar gostava de deixar no ar esta mistura de pergunta retórica e epifania falsificada, e gostava ainda mais quando uma saída estratégica era forçada pelo pedido de algum outro cliente, de modo que não se criasse um silêncio constrangedor demais nem permitindo um vínculo próximo demais. O dono do bar prezava pela sua segurança e pelo seu juízo mental,acima de tudo.
-Mais uma dose aí.
-Pelo jeito tem muito o que esquecer hein…
-Tenho muito dinheiro e pouco escrúpulo, já basta.
-E o que achou do julgamento do caso do vendedor de ferro velho?
-Para os pobres sempre sobra o ferro.
-Sorte sua não ser pobre, então.
-E quem disse que não sou? Só é pior para os que são mais pobres do que eu, e não são poucos…
-Pois é…
O dono do bar tinha o grande mérito de não se enfadar com facilidade e de procurar algo de interesse mesmo na conversa mais fiada; as conversas fiadas, aliás, eram o ponto alto de seu dia, a não ser nos raros dias em que conseguia um chamego intímo com sua mulher de longa data. Já o desgastado bebum não possuía qualidades destacáveis, pois há muito tinha perdido o senso de esmerar algumas características, ato necessário para preservar adjetivos positivos aos olhos dos outros. E os adjetivos negativos eram fracos demais, nem dignos de nota, a não ser por serem persistentes, dificeis de afogar.
-Me veja mais uma dose aí - a voz já um tanto embargada; as doses eram tomadas em tragos únicos,rápidos.
-Quer ficar com a garrafa?
-Não tenho saco para me servir.
-Saco para servir é o que não me falta.
-Já pensou em se matar?
-Já. Vida de botequeiro não é lá grande merda.
-E pode-se chamar isto de vida? Já não estaríamos todos mortos? Mais uma…
-Se pode ou não se chamar de vida, não sei. Mas quer saber? Se é pra se matar continue assim, dando cabo da vida aos poucos, adormecendo algumas dores e me dando algum lucro.
-Você é a porra de um velho safado - disse o ébrio, sorrindo tortamente.
-Safadeza é a única coisa que presta nesta vida
-Veja mais uma dose então, que agora vou me mexer desta porra de lugar e fazer alguma merda por aí.
Entregou a dose desejando um sincero “volte sempre”.
Ele sempre voltava.
DORFO

A insônia constante não mais a aborrecia; nem os passos ligeiros dos muitos ratos e ratazanas no forro de seu quarto perturbavam. Diante dessa situação de sossego imposto, Ana mantinha seu corpo estirado sobre o colchão de molas em estado, no mínimo, lastimável e mantinha, também, os olhos semiabertos focados em algum ponto perdido entre o forro e o nada.
Ana ruminava pensamentos, mas não conseguia digeri-los.
O que mais preocupava Ana era o fato de que nem mesmo o vinho, velho e sábio amigo, trazia mais conforto de nenhuma espécie. Ana já tinha matado 3 de seus amigos em forma de garrafa e tudo o que se passava era uma ligeira náusea, um desconforto estomacal e aquela euforia de um mundo girando além do que já costuma girar.
Pensamentos ruminados não movem moinhos, refletiu Ana.
Os braços cruzados sob a cabeça eram seu único travesseiro, pois os ratos haviam lentamente traçado os outros 2. Seus olhos fecharam-se pausadamente, mas não devido ao sono. Fadiga de viver, talvez. Acendeu a luz de seu abajur semidestruído, apanhou o caderno roto de folhas amareladas e a caneta perto do fim que estavam sempre colocados em cima de seu desgastado criado mudo e começou a escrever.
“A inspiração não vem de pensamentos ruminados; a inpiração são os pensamentos ruminados, de modo que não há criatura mais ruminante que o homem, criatura dotada pela traiçoeiramente magnífica mãe-natureza de natural desejo de inspirar-se sendo inspiração.”
Parou, lançando olhos vazios para a folha em que anotou as linhas acima, respirou profundamente e expirou rapidamente, continuando:
“A ruminação é essencial à alimentação; de igual maneira a ruminação pensadora é parte fundamental da alimentação da alma. Mas não rumino, por isso estou faminta.”
Após estas linhas o sono chegou arrebatador, arrebatando com ele a inspiração, que tanto demorou a aportar em sua consciência. Ana pensou que teria mais uma longa noite, afinal seria horrível permitir que aquelas notas ficassem soltas, sem um fim.

SEM SOMBRA DE DÚVIDAS- Dorfo
Sem sombra, a dúvida andava por aí, livremente.
Estampada, escancaradamente, nos grandes olhos fugidios.
A vida, este grande trem sem trilhos,
Ecoava o passar de seus vagões, eco intermitente.

Sabe-se da poesia escrita com os calos das mãos,
Nas linhas de cada marca de expressão.
E a dúvida,sem sombra, caminhando livremente.

Sem mais, alguns olham para o amanhã, flor despetalada.
Outros são do ontem, fumaça esvanecida.
Muitos, a grande maioria, são do hoje, dúvida disfarçada
E ela,sem sombras, florescendo guarnecida.

Sabe-se da poesia escrita com pés descalços
Nas estradas dos rumos e seus percalços
E a dúvida, sem sombra, caminhando livremente.

A típica felicidade de nossos tempos
Piscando em janelas, vitrines e fachadas,
Realizando-se no 13º e nas compras parceladas…

A era do “seja feliz tendo”
Superando a natural e simples supremacia do “seja feliz sendo”…-

Nada contra o sentimento, pois qualquer sentimento é nobre
Mas de todas as formas de concretizar a sensação humana
Foram escolher logo a mais pobre…

Ho-ho-ho!

Dizem que alguém especial nasceu neste dia…
Conta uma suposta história que era um sujeito simples, mas de gestos poderosos;
Modesto, de pouca ou nenhuma posse,mas de caráter firme e de postura íntegra
Dizem que seus presentes eram obras do espírito não da matéria
Mas esta é uma antiga história, calcada e superada.
A que não se dá mais atenção
Especialmente com tantas sacolas à mão…

Ho-ho-ho!

    Tentou se lembrar qual foi a última vez que seu coração bateu mais rápido,descompassado. Tentou relembrar a última vez em que ficou sem fôlego,ou quase. Tentou trazer à memória a úlitma vez que se sentiu vibrante,pulsante. Tentou resgatar nas lembranças a última vez que sentiu seu corpo arrepiar-se, derreter-se. Tentou se lembrar da última vez que sentiu calor de dentro pra fora, em que sentiu vontade de gritar loucamente e gritou.

     Pausou.

     Tomou um longo gole de aguardente. 

     Abriu a janela do 14º andar e olhou para baixo,para o chão, como que procurando freneticamente por uma razão para não pular.

     Rezou. Tentou se lembrar qual foi a última vez que tinha orado e conseguiu apenas perceber que não estava adiantando muito.

     Agarrou-se pelo parapeito da janela, já com todo o corpo para fora.

     Tentou se lembrar da última vez que sentiu seus olhos brilharem,vivos. Tentou relembrar a última vez que teve esperança,que sonhou de olhos abertos. Tentou trazer à memória a última vez que alguma perspectiva a fez sorrir,sozinha. Tentou resgatar nas lembranças a última vez em que viu beleza, leveza, pureza.Tentou se lembrar da última vez que tentou.

     Pausou.

     Respirou profunda e longamente.

     O telefone tocou.

     “Justo agora?”, pensou.

     Olhou para baixo vertiginosamente.

     O telefone tocou novamente.

     Atendeu, e não era o seu amor.

     “Que pena”.

     Pulou.

Vai ver que é porque dificilmente é um “estar bem”,
Ou um “ser bem”…
Soa como um “parecer bem”…

E poesia boa é poesia honesta,meu caro.
É aquela da franqueza,do projétil em forma de palavra.
É aquela que ri daqueles que resolvem estudá-la,
Esquecendo de senti-la,vivê-la.
É aquela que exalta sentimentos nobres como coisas reles
E coisas reles como coisas nobres,exatamente por ser real.
É aquela que se entrega à fantasia (palavras são fantasias!)
Por essência, por questão de ser e não poder ser de outro jeito.

A poesia é o estar bem.
A poesia é o ser bem.
Mesmo com as mais terríveis e funestas dores e perversões deste mundo….
Há espaço para todas elas na poesia!
O mundo só é mundo porque há uma palavra mundo
E cada palavra é uma poesia por si só.
Mas pra ser boa há de ser honesta.

Pai(E o pai só é com letra maiúscula porque é o começo do texto, senão era pai.)

Nosso que estais no céu.

Ficai onde estais.

Que aqui não dá mais.

Santificado seja o teu nome.

Mas digo por experiências anteriores:

Só desvinculando-o de padres e pastores.

Venha a nós o vosso reino.

Que os reinos que o senhor tem permitido

Estão pior que satanás.

Seja feita a tua vontade. Já foi tentado e não deu certo:

Veja o mundo em sua realidade.

Melhor nem continuar

Ou irão me excomungar.

Rodolfo Venancio da Silva

A IMITAÇÃO DA ROSA (INSPIRADO EM OBRA DE CLARICE LISPECTOR)

E quando olhou-as viu as rosas.
E quando olhou-as não pode resistir ao ímpeto
De ser suavemente incoercível
Ao insinuar-se a si mesma:
“Não dê as rosas, elas são lindas”.
E logo este pensamento ganhou em intensidade:
“Não dê as rosas, elas são suas”.
As coisas nunca eram dela, mas as rosas eram.
Eram lindas e suas, mas não eram:
Quanta ilusão! Coisas belas não podem ser.